O exercício da maternidade sempre foi e sempre será complexo, desafiador e, por tantas vezes, solitário. Sobretudo hoje, sob o contexto da pandemia da COVID-19, quarentena e isolamento social, ser mãe tornou-se mais intenso e emblemático do que nunca. Das dores às alegrias, todas as experiências, tudo, absolutamente tudo está sendo vivenciado em seu ápice.

Um dos principais conflitos que uma mulher vivencia, desde que se compreende na condição de mãe, é com relação à sua visão sobre si mesma: ela já não sabe distinguir, com a devida suficiência, quem ela é desconsiderando sua ligação com seu filho, algo que era natural antes da maternidade. Todo e qualquer espaço sem a presença do filho, seja ele físico, virtual ou de tempo, é fundamental para que a mulher possa se conectar consigo própria. Se estes espaços já eram tão limitados sob contextos antes normais, agora eles se tornam praticamente inseparáveis da saúde mental da mulher, então mãe. A demanda por um respiro de identidade é imensa, e a mãe, em contato ininterrupto com seu filho, precisa de quem lhe estenda a mão, de quem se importe e, principalmente, de quem tenha empatia íntima por suas vivências e a reconheça sob toda aquela carga de estereótipos e exigências que a sociedade a impôs e ela acatou. Uma rede de apoio, tantas vezes personificada pelo compartilhamento de guarda, pelo auxílio das avós, por outra mãe, pelas instituições governamentais ou privadas, por cuidadoras ou por outros parentes, agora se reduz, fisicamente, à presença de alguém disposto, que more junto com esta mãe, se for o caso. De todo o jeito, o desgaste, em todos os níveis, é imensamente maior, e junto dele, a sensação de desamparo, potencializada por tantos medos, tanta incerteza e a sensação de impotência sobre tudo que se passa.

Diante de tantas limitações, o que fazer então? O que melhor pode ser feito, e o que deve ser feito, é RESSIGNIFICAR estas redes de apoio e as ações em prol de acolher as mães em situações de vulnerabilidade, seja física, emocional ou psicológica. O “simples” ato de mostrar empatia a essas mães, já é algo imensamente acolhedor, considerando que parte significativa do sofrimento emocional e psíquico de uma mãe, é consequência da pressão sofrida pela mesma para corresponder a tantas expectativas externas, e todas ao mesmo tempo, como se as suas próprias demandas e as demandas da criança já não sejam pressão o suficiente. As trocas de experiências e vivências também se traduzem em uma das ações mais eficientes para se estabelecer uma rede de apoio funcional: estar ciente da realidade da maternidade como ela é, de fato, e não como ela se apresenta em sua melhor versão, pronta a atender uma espetacularização nas redes sociais, retira da mulher, que é mãe, o peso da responsabilidade, da expectativa e da culpa, além de fortalecê-la na esperança de que superar estes tempos é possível, pois ela não é a única, e nem será a última, a enfrentar as dores da maternidade.

Neste mês de maio, e em todos os outros meses, se faça presente, facilite o acesso, acolha uma mãe, sendo ou não uma delas. O contexto da pandemia, e com ele um acúmulo de incertezas, tendem a tornar a maternidade uma vivência mais difícil, mas, entre dias melhores e dias piores, entre altos e baixos, ele vai passar. A psicologia, principalmente por meio da psicoterapia, atua como um diferencial fundamental no contexto da maternidade. Grupos terapêuticos para mães de primeira viagem, e/ou com a presença de outras mulheres que já passaram por esses momentos, são ricos e muito acolhedores neste período tão delicado. Na ausência dessa possibilidade, há diversos grupos de apoio e de troca de experiências também nas redes sociais.

Apesar do enfoque no lado não tão romântico assim da maternidade, ela não deixa de ser, também, o maior ato de amor e a troca mais íntima e intensa que um ser humano pode experimentar. Privilégio da mulher. Privilégio este que você, mãe, merece vivenciar em sua plenitude. Você é imensamente merecedora. E você não está sozinha.

Clara Werneck

Psicóloga - CRP: 05/48863

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