Carta aberta aos enamorados

No Brasil, influenciados pela cultura americanizada, temos dois Dia dos Namorados, o “Valentine’s Day”, no dia 14 de fevereiro, e o “Dia dos Namorados”, no dia 12 de junho. Há quem tenha celebrado o primeiro e não celebrará este segundo, e vice-versa, e há quem celebrará os dois (o comércio que o diga, ou nem tanto, em tempos de quarentena e isolamento social).

Como não há o “dia dos casais”, ou “dia dos cônjuges”, os maridos e as esposas, com seus respectivos pares, tiram uma casquinha dessa data também, enamorados e românticos que são. E falando em romantismo, ou melhor, NÃO falando em romantismo, esse texto fala de amor, por uma perspectiva não tão lúdica, atraente e consumível assim, mas, por uma perspectiva prática, tão importante, ou mais, em determinadas fases da vida a dois, do que o amor romântico, este, praticamente um patrimônio da humanidade. Em tempo: alguém já se perguntou por que existe o dia dos namorados, e o Valentine’s Day, mas não existe o “dia dos casados”, ou o “Marriage’s Day (ou algo do gênero)? Ora, mas o amor não seria consolidado pela união matrimonial? Bem, talvez o dia dos namorados, ou o dia de São Valentim, por uma perspectiva simbólica, e não comercial, seja para todos os pares ENAMORADOS, tenham eles um status de relacionamento ou não.

Assim como uma arte tem sua beleza potencializada pela moldura, ou é enriquecida por seus detalhes, o amor, na sua vivência cotidiana a dois (ou mais, no caso de modelos de relação poligâmicos), tem no romantismo sua graça, seu encanto, seu diferencial. Por outro lado, da mesma forma que uma moldura ou detalhes nada são sem a obra, o romantismo, por si só, o estar apaixonado pela ideia de estar apaixonado, e não pelo outro, de fato, não sustenta uma relação, ou melhor, não faz uma relação. A monogamia, principalmente sob condições de uma coabitação, no caso do casamento como o conhecemos, desafia alguns instintos humanos que fazem uma espécie de “cabo de guerra” com essa configuração, legitimada sob o contexto do romantismo há apenas poucas décadas atrás.

Há de se tecer uma perspectiva mais prática sobre a expectativa que se cria acerca de uma relação a dois, mais ainda sob uma cultura ocidental contemporânea onde a autonomia, inclusive emocional, e a individualidade, são tendências em alta. Neste sentido, dois paradigmas devem ser desconstruídos: o primeiro é que “não tem mais jeito” para o amor, que o romantismo é artigo em extinção; “não se fazem mais homens como antigamente…”, “não se fazem mais mulheres como antigamente…”. Ora, se a monogamia e a coabitação fazem sentido para quem genuinamente deseja esse modelo mais tradicional de relação, deve insistir nele, claro, junto a alguém que comungue das mesmas expectativas de relação. O segundo paradigma, que deve ser desconstruído logo em seguida, é o de que, em contrapartida, “o amor basta”. Se por um lado o amor romântico é capaz de florescer em um contexto não muito fértil, há de se convir que, para que ele se mantenha vivo, é necessário alimentá-lo, estar atento e adotar, com propriedade e disciplina, medidas práticas para conservá-lo com vigor.

Trocando em miúdos: problemas evidentes na vida sexual? Insuficiência ou ausência de comunicação? Não se faz questão de passar um tempo a sós, ou não se aproveita o tempo juntos? Não se sabe mais do que ocorre de relevante com o outro? Não se percebe mais o que lhe acontece de importante? Não se olha nos olhos? É necessário ASSUMIR que não, o “amor”, compreendido equivocadamente, não basta, e não SE basta. E sabe do que mais? Tudo bem! O verdadeiro amor mora no amar o outro: real e imperfeito, no QUERER FAZER DAR CERTO, e não a ideia de estar amando, sendo o objeto desse amor, o próprio amor, enquanto a pessoa é mera coadjuvante. Contudo, problemas devem ser resolvidos, e para isso deve haver, entre os envolvidos, diálogo, intimidade (emocionalmente falando) e disponibilidade, esta principalmente. A psicoterapia de casal é muito eficiente na resolução de conflitos amorosos, principalmente se cada membro está em terapia paralelamente, pois, através de uma intervenção acolhedora e profissional, ambos vão se (re)descobrindo como indivíduos e como casal (mesmo que, em alguns casos, venham a descobrir que não funcionam mais como casal), de maneira que as reais origens de tais conflitos passam a ficar mais claras. Por exemplo: questões na vida sexual, geralmente, não são o problema, mas a “ponta do iceberg” dele.

Um possível dia dos namorados para todos os casais: separados pelo isolamento social, mas mais juntos do que nunca pela vontade de estar perto, e para os que estão juntos, fisicamente, e não estão, por sua vez, separados pelo confronto em tempo integral com um outro cada vez mais real, despido de parte de suas máscaras sociais, às quais era mais fácil recorrer quando a casa não era o único contexto possível.

Clara Werneck

Psicóloga - CRP: 05/48863

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