Ao longo do desenvolvimento humano, desde criança passamos por diversos processos de socialização em que introjetamos papéis, valores e comportamentos associados aos gêneros masculino ou feminino, que variam de acordo com cada época e cultura.

Há alguns anos a rigidez e os estereótipos colocados sobre o feminino e o masculino vem sendo fortemente questionados por diversos grupos sociais, pois acabaram por desenvolver diferenças que vão além do sexo biológico.

Através de diversas lutas, acompanhamos mudanças importantes, que fizeram com que mulheres pudessem ocupar lugares diferentes do espaço privado/doméstico, por exemplo. Por outro lado, lidamos com a dificuldade dos homens acompanharem e perceberem a importância de transformarem suas mentalidades.

Por muito tempo, vemos reflexões e discussões acerca dos efeitos extremamente negativos do machismo sobre a vida das mulheres, sabemos que as diversas formas de violência contra a mulher são fruto da visão de inferioridade construída sobre elas.

O que recentemente tem sido levantado é o fato de as consequências prejudiciais do “ser homem” também agir sobre o grupo masculino.

Se o “ser mulher” foi por muito tempo definido como um ser sensível, que é responsável pelo cuidado, sexualmente contida, respeitosa, etc., “ser homem” acaba sendo o esforço em ser o mais distante possível das características femininas. Dessa forma, homens ainda são desde criança ensinados a serem viris, controladores, competitivos, a não expressarem seus sentimentos, entre outras coisas. Comportamentos que aparentemente são demonstração de força, acabam por ser a manifestação do medo em expor suas fraquezas e vulnerabilidades.

A incapacidade de identificar as emoções é um dos motivos que faz os homens recorrerem a agressividade como forma de expressão que vai atravessar todos os seus relacionamentos.

Mas se os homens estão nas posições de poder e são os detentores de tantos privilégios, como o padrão de masculinidade pode ser nociva também para eles?

Diversas pesquisas trazem resultados em que se pode constatar que as crenças transmitidas para os homens são extremamente ameaçadoras também para eles: homens são vítimas da grande maioria das mortes por homicídios e acidentes no Brasil; vivem menos que as mulheres; as taxas de suicídio são maiores nesse grupo; é expressivo o número dos que se envolvem em algum nível de dependência alcoólica/química; são grande maioria da população carcerária no Brasil.

Homens negros apresentam especificidades, pois sua masculinidade é desde sempre marcada também pelas diversas violências advindas do racismo.

Estes e muitos outros dados reforçam o quanto é urgente falarmos também com os homens, que não devem ser considerados somente vítimas do machismo, uma vez que homens e mulheres são vítimas e reprodutores do machismo em suas diversas formas.

Segundo pesquisa do Instituto Papo de Homem, 6 em cada 10 homens afirmam enfrentar algum tipo de conflito emocional, muitos não diagnosticados, pois resistem em buscar ajuda. Os distúrbios mais comuns são ansiedade, depressão, vício em pornografia e insônia. Os vícios em álcool, drogas, comida, apostas e em jogos eletrônicos também são recorrentes.

Pensando na necessidade de repensar os estereótipos que cercam o masculino, vem aumentando o número de projetos que objetivam a transformação das masculinidades. Grupos de conversas de homens comuns que a partir do questionamento e do desconforto tornam a desconstrução, um processo possível.

A violência doméstica, o feminicídio, os crimes de ódio e estupros estão diretamente associados à masculinidade nociva e a prevenção destas violências passa necessariamente pelo debate sobre o agressor.

A partir de iniciativas que envolvem a reabilitação de homens autores de violência, observou-se a importante diminuição da reincidência nos casos de violência contra a mulher. Propiciar a esses homens a oportunidade de rever seus comportamentos e as formas de se expressarem, tem como consequência também a possiblidade de poderem experienciar novas formas de existir enquanto homem.

Falar em desconstrução masculina não significa que toda forma de ser homem é prejudicial. Pelo contrário, valoriza e estimula as infinitas manifestações do masculino.

Abrir espaços para o diálogo, grupos terapêuticos ou terapia individual, permite que o homem acolha sua vulnerabilidade e se responsabilize pelo dano causado a si próprio e ao outro. Questionando padrões, medos, vergonhas e dificuldades, é possível rever, do seu lugar de privilégio, como se recolocar em casa, no ambiente de trabalho e em todas suas relações.

Para que mudanças possam de fato ser alcançadas é preciso que haja envolvimento das escolas, famílias, meios de comunicação, políticas públicas e da sociedade. Transformações começam por pequenos gestos: questionar comportamentos nocivos, não expor materiais íntimos de outros/outras em redes sociais, não fazer piadas preconceituosas e não subestimar a inteligência de uma mulher, são ótimas maneiras de recomeçar.

Informações úteis 


Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência – é um serviço de utilidade pública gratuito e confidencial (preserva o anonimato), tem por objetivo receber denúncias de violência, reclamações sobre os serviços da rede de atendimento à mulher e de orientar as mulheres sobre seus direitos e sobre a legislação vigente, encaminhando-as para outros serviços quando necessário.

 

Clínica Ponte – serviços psicológicos, localizada na Barra da Tijuca – Rio de Janeiro / RJ. Atendimento em terapia individual e grupo terapêutico para homens/mulheres agressores e vítimas.

Caroline da Silva Guimarães

Psicóloga - CRP: 05/59738

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